O Portugal dos Pequenitos trata da construção da imagem de um Portugal. Nessa construção procurou-se condensar aquilo que se acreditava serem as qualidades intrínsecas de uma nação na forma da arquitectura. Desde o castelo medieval, passando pelas construções manuelinas até às influências exóticas dos lugares coloniais. Uma mescla de referências histórias, sociais e artísticas dotavam o país de uma diversidade cultural única no mundo e erguiam um império de imagens.
Hoje permanecem as representações que já não existem apenas como um apanhado enciclopédico das espessas camadas de história e das arquitecturas mas também, e sobretudo, devem ser entendidas como corpos transgénicos de estéticas por vir. Mais do que uma noção de um passado pronto a ser assimilado ou petrificado, elas suscitam um olhar criativo para o nascer de novas relações orgânicas entre formas e entre histórias, onde o passado e o presente se imiscuem num tempo comum a que Walter Benjamin chamou de imagem dialéctica.
Quando Cassiano Branco desenhou a torre de universidade e a porta férrea em continuidade com o claustro do Machado de Castro não rompeu apenas com uma verdade histórica e arquitectónica, mas abriu espaço a novos diálogos entre uma ideia de interpretação do passado e a condição imanentemente criativa dessa construção. Uma vez no pátio desenhado pelo arquitecto não só estamos perante fragmentos da história ou, se quisermos, de Portugal, mas também, e mais relevante, estamos num espaço novo formado por novas relações físicas e mentais, aberto a novas atenções e a novas estranhezas.
Freud propõe o estranho a partir daquilo que nos é familiar: apenas o que reconhecemos pode tornar-se estranho. Nas suas considerações sobre o estranho (Das unheimliche, 1919), o psicanalista chega ao significado de unheimlich (o que é estranho, o que causa temor) através da sua palavra geradora e antónima, heimlich, referente ao familiar mas também ao íntimo, ao secreto e ao oculto.
Assim, os dois termos são dotados de uma ambivalência que explica a experiência do estranho como algo que se revela no oculto da memória. O que é novo é apenas novidade, o que é estranho nasce do que é reconhecível. O Portugal dos Pequenitos, lugar das representações, é a potência dessa estranheza freudiana. Perante os símbolos, as tipologias e as formas representadas na miniatura, na descontextualização e no mito, a estranheza toma aquele que passeie neste país reimaginado.

A memória individual e colectiva dos visitantes provoca uma atenção demorada sobre os pequenos edifícios, identificando-os e relacionando-os. A circunstância própria da sua reprodução irá alimentar o íntimo do objecto - aquilo que fere a memória, o punctum fotográfico – fomentando uma aproximação contemplativa com o mesmo. É a partir desta atenção para a estranheza que será possível a apologia do olhar contemplativo, primeiro estágio do pensamento para um outro Portugal.

Março, 2016.