O AVESSO DA CIDADE, do Almegue ao Calhabé.

Tem-se assistido a um processo de emolduramento dos centros urbanos a que Coimbra não é excepção. Passear pela Baixa de hoje é vestir a pele de um turista na própria cidade. As lojas de souvenires multiplicadas pela lei da oferta e da procura fazem-nos atravessar a Ferreira Borges num passo mais apressado e de olhos postos no chão, fazendo do percurso da Portagem à Praça 8 de Maio numa espécie de Caminho do Calvário do recuerdo. Nos mapas surgem vários pontos de atracção: O Pátio das Escolas, a Sé Velha, o Machado de Castro, as Escadas Monumentais, a Sé Nova. Locais de visita obrigatória de quem chega de manhã num autocarro vindo do Porto e parte ao fim da tarde num autocarro rumo a Lisboa. O que eles viram foram as formas transformadas em símbolos, pulando de atracção em atracção, ignorando aquele intervalo entre a fotografia de grupo nas escadas da Sé Velha e a explicação do guia em frente da Porta Férrea.
Aquele que se limita a observar a cidade, o turista por excelência (não reduzindo este fenómeno à figura do turista em si), é aquele que a despe da sua condição política. É aquele que ignora os intervalos, as ligações, e que se satisfaz com o isolamento estéril do que vê. Passa sem tocar, passa sem transformar, passa sem habitar. Não há espaço para ferir porque está tudo ocupado sob as formas totalizantes de que fala Bruno Latour (Paris, ville invisible: le plasma, 1998), como se as cidades fossem simplesmente imagens recortadas em que só é preciso reagrupá-las. Coimbra não é a Universidade mais a Baixa mais o Hospital mais a ponte Pedro e Inês, mas sim todas as formas que se multiplicam no seu entre, todas essas conexões físicas e sociais. A cidade não se experiencia em sucessivas aproximações como um zoom no Google Earth, mas através de incontáveis relações sensíveis e intelectuais que não prevêem linearidades simplistas. A cidade faz-se de x a y e não de x e y. No limite, a cidade não seria composta por lugares onde se vai mas sim pelos percursos que constroem esses movimentos, numa espécie de psicogeografia debordiana.

Nesses intervalos já existiram a Aeminium e a Kulūmriyya, o Fórum Romano e a Almedina dos aristocratas e dos clérigos. Nas calçadas de pedra já descansaram os cavalos de Junot e jovens bêbedos expulsos da noite pelos primeiros raios de sol. No avesso da história contada nas duas páginas do Lonely Planet, continuam a surgir as outras estórias em toda a sua ficção. Nas dobras dos símbolos destacados à cidade esperam serenamente os passeios, as fachadas quietas, os bancos vazios, por aqueles que se demoram neles e os sustentam insconscientemente como o avesso da cidade. Esse corpo orgânico que se encolhe e se expande, que absorve e expulsa, que se mostra no seu esplendor e se oculta no opaco da sua banalidade. É trabalhando a profundidade que permanece oculta nas visões totalizadoras dos cartões-postal e dos rituais mecanizados que permitiremos às cidades continuar a construir o nosso imaginário. Como Chris Marker e Pierre Lhomme demontraram em Le Joli Mai (1963), há sempre um lado inacessível - mesmo na cidade de Haussman. Neste filme/documentário ambos deambulam por uma Paris negada ao seu glamour, intercalando a interacção com as pessoas na rua com uma reflexão poética plena de dúvidas, e mostram como até a cidade mais cliché da época está assente em estruturas sombrias, opacas e complexas. Esta Paris é uma cidade tão ambígua que não pode ser revelada a não ser na sua invisibilidade. É essa cidade onde gostaríamos de chegar sem memória, onde gostaríamos de voltar depois de um longo tempo para saber se as fechaduras se abrem sempre com as mesmas chaves, se há sempre aqui a mesma proporção entre luminosidade e neblina, entre aridez e ternura, se há sempre uma coruja que canta no crespúsculo, um gato que vive numa ilha, diz Chris Marker que acaba por ampliar o mistério – Não há chaves para Paris, foram todas atiradas ao Sena. Seria esta a Paris que Latour defende quando afirma que para que a política renasça, para que Paris seja novamente respirável, é necessário que Paris permaneça invisível, no sentido em que nem as partes nem as diferentes totalidades nas quais estas se inserem não sejam estabelecidas de antemão.

Se considerarmos a polis como a criação máxima do animal-político, podemos arriscar concluir que o recorrente modo com que se aceita abreviar todo um território urbano a meia dúzia de ideias e formas no limite da caricatura é, no mínimo, um sinal de descrença no nosso próprio poder imaginativo. A experiência da cidade não terá de ser política a priori, mas a actuação de novas forças criativas abre por si só novas sensibilidades ao ser político. A esfera pública que acontece no prolongamento do indivíduo e na multiplicidade deste na cidade sai enfraquecida quando o seu alcance se esgota na razão de uma só perspectiva. A cidade como potência da imagem só pode ser alcançada na fuga à sua totalização. Ora, o que resta da moldura que estatiza (e estetiza) os símbolos da cidade são as suas partes invisíveis, os becos silenciosos, o anónimo dos interstícios – enfim, o que não está sujeito ao sufoco da totalidade. Será então necessário pensar as novas sensibilidades da cidade através da emergência de novas invisibilidades, destacando-as ao visível. Do Almegue ao Calhabé são mais as janelas e as portas que as tabuletas e mais os caminhos que os mapas. É no avesso da cidade que nascem as ficções. É na franqueza das montras que propomos o invisível.

Abril, 2016.


Texto-mote escrito para a exposição "O AVESSO DA CIDADE, do Almegue ao Calhabé" organizada pelo Colectivo P5.