BOLÍVIA, 2010


Vindo do Brasil, entro no país pela pequena vila de Puerto Quijarro. É quase cenográfica a mudança de ambiente paisagístico e urbano quando se percorrem apenas umas dezenas de metros a pé entre os postos fronteiriços. Apesar de pequena, a vila alberga alguns restaurantes, mercearias e lan houses, que se multiplicam como avatares de contacto com uma realidade ainda distante. São cerca de onze da manhã e o único comboio do dia só sai ás seis. As horas que se seguiram foram a entender o tempo como um valor perdido que encontrei neste país. Nenhum horário corresponde ao da tabela e uma viagem que duraria quatorze horas acabou por durar cerca de vinte e uma. Chego à cidade mais populosa da Bolívia, Santa Cruz de la Sierra, quase um dia depois sem dar o tempo como perdido. Os seiscentos quilómetros a uma média de 40km/h acentuam e valorizam a percepção da distância real que percorremos e sentimos na pele o isolamento que assola este bocado de terra. A chegada a esta cidade foi o primeiro grande impacto que tive enquanto observava os aglomerados residenciais que na sua maioria não têm acesso aos serviços básicos, e isso traduz-se em esgotos a céu aberto, electricidade roubada da rede pública, etc. Sem tempo para muito mais segui para Sucre, a capital boliviana, desta vez de autocarro, que veio confirmar a precariedade das infraestruturas rodo e ferroviárias.



Noutro lugar do planeta a relevância das cidades surge no território através de uma rede de acessibilidades que revelam a importância e as necessidades dos núcleos urbanos, enquanto que na Bolívia tal rede pura e simplesmente não existe. A ligação entre as principais cidades resume-se a uma via precária com poucas ou nenhumas alternativas. Prova disso foram as dezasseis horas de viagem para fazer pouco menos de trezentos quilómetros percorridos na sua totalidade por uma estrada adoçada ao alto maciço montanhoso da Cordilheira Oriental desprovida de qualquer tipo de pavimento, sinalização ou iluminação. Ao longo do percurso reina o silêncio nas serras despidas de vegetação onde, a dada altura, algumas aldeias vão marcando o ritmo de aproximação à capital. Em Sucre aproveito para descansar e poucos dias depois sigo para La Paz, que se encontra a mais de 3600 metros de altitude e forma com El Alto (quase 500 metros acima) a maior aglomeração urbana do país. Atravesso o altiplano boliviano já conformado com as péssimas condições destas jornadas - apesar de agora a estrada ser alcatroada - mas ainda rendido à constante presença do deserto. As serras de terra e pó contrastam com os picos longínquos cobertos de neve que revelam a sua grandeza à medida que nos acercamos da cidade.





Entrar em El Alto é um exercício de observação do crescimento da cidade através do edificado uma vez que da consolidação urbana vão resultando edifícios com cada vez maior investimento na sua concepção, quer a nível formal quer construtivo, passando gradualmente do adobe para o tijolo, da ausência de revestimento ao vidro espelhado. Depois do autocarro percorrer praticamente em linha recta quase toda a extensão de El Alto chega finalmente ao limite do planalto abrindo-se dramaticamente sobre a cidade de La Paz que se encontra lá em baixo cercada pelos Andes. Demora algum tempo até que me aperceba do seu tamanho real tendo em conta que os seus prédios altos e bairros a perder de vista perdem completamente a sua escala quando atrás vinga o cume do Ilimani. A descida faz-se então demorada e a sensação é de entrar numa cratera. Quanto à cidade em si mostra-se como a mais ocidentalizada, onde o contraste com a cultura autóctone roça a virtualidade. Sigo para o Perú, a fronteira é uma estrada cortada ao meio e do outro lado pouca coisa mudaria.








Trabalho realizado para a Revista NU #36 Sul.